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quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Obrigado, Rochedo

Ginnethon Oliveira Rios (Rochedo) - *06/01/1927   +15/11/2015

Todos os dias ele acendia o candeeiro de lata entre as 3:30 e as 4:00 da madrugada. Logo o primeiro clarão do fogão à lenha tremulava na telhas vãs lá da cozinha e em dueto com o galo no poleiro faziam o menino acordar. O galo não cantava só, outros se juntavam a ele e seus cantos vinham das fazendas longínquas, as quais sempre sonhei saber onde eram para um dia quem sabe ir visitar. Antes mesmo de a luz do dia entrar pelas frestas das janelas do quarto da frente, o cheiro suave do café pairava por toda a casa, onde pouco a pouco sua descendência ia despertando esporadicamente. A lajota fria convidava a andar descalço, mas a mãe, as tias e até mesmo o velho já me haviam advertido várias vezes para não levantar e pisar no chão frio com o corpo ainda quente. Mas era irresistível teimar um pouquinho.
O primeiro encontro todos os dias era sempre uma nova emoção, ver aquele corpo vivido, mas ainda não cansado, com sua cabeça calva de finos fios prateados andar de um lado para o outro entre a velha cozinha e a despensa, onde pegava o vasilhame metálico do leite. A primeira piada, o primeiro sorriso de muitos e para muitos no seu dia a dia. Sempre cuidadoso tentava inutilmente fazer voltar à cama quem já não tinha sono. Vencido pela teimosia de quem tanto queria sua companhia, servia-me café numa canequinha descascada de esmalte e saíamos para o quintal. Com seu chapéu de palha e as chinelas velhas de couro, passava na casa de farinha onde pegava as cordas de arriar as vacas.
Curral velho, naquela época com a cerca toda feita de madeira e enfeitada de netos pendurados, todos de caneca na mão esperando o leite fresco sagrado de todos os dias. Tinha que ser aquele tirado na hora, ainda quente e espumante.
O velho chegava no terreiro e gritava pela netaiada e em fila indiana desciam para a horta e ao voltar cada um trazia uma melancia, os maiores duas. A depender do tempo era batata doce, aipim, milho ou abóbora, mas sempre uma festa. Se não houvesse balanço, algum neto sempre pedia e lá ia o velho com uma de suas cordas mais firmes e um pedaço de pau armar o brinquedo na varanda do fundo ou no pé de cajá. Fazia tudo por um simples sorriso dos seus. Às três da tarde, sempre em companhia de algum dos meninos ia apartar o gado e esta era mais uma tarefa festiva e disputada. Dormia cedo, logo após a novela das sete, pois seu dia começava antes de o sol sair.
Esse era o velho Rochedo, Ginnethon Oliveira Rios, um homem de Deus, pai de uma grande família. Jamais negou uma palavra amiga de sabedoria a quem quer que lhe procurasse. Seu sorriso sempre espontâneo, seus olhos agudos e vivos, sua voz sempre calma engrandeciam sua alma, apesar de de seu corpo pequeno. Um herói que enfrentou diversas enfermidades, sofreu muitas cirurgias e a todas sobreviveu, até quando muitos de nós chegamos a perder a esperança. Nenhum apelido lhe caía tão bem como este: Rochedo.
Mas infelizmente o rochedo se partiu. A vida, sempre tão cheia de mistérios, de regras e surpresas, o deixou numa noite de domingo. O Senhor o chamou ao descanso de suas guerras. Fôssemos nórdicos, crentes da mitologia dos vikings, eu diria que meu avô chegou ao Valhala e lá foi recebido com festas. Ele se foi e a sua ausência agora se impõe até o fim de nossos dias. Está sendo difícil, sempre será. Naquele dia, quando nos reunimos para nos despedir de seu corpo, todos nós parecíamos uma única pessoa, a tristeza dominava nossas almas de maneira uniforme e isso vai perdurar. A dor não vai passar nunca, simplesmente vamos aprender a tolerar sua presença e a suportá-la, mas o lugar daquele senhor tão amigo, fervoroso e engraçado ficará vazio.
Mas sua presença viverá em nós, em cada lembrança, nas recordações de suas anedotas, das mirabolantes histórias quer inventava para nos impressionar. Jamais o esqueceremos. Mesmo com a alma lavada em lágrimas e o coração apertado de dor, devemos fazer do sentimento de gratidão algo maior que a nossa tristeza. Sermos gratos por termos convivido com este homem, de termos sido seus descendentes e todos seus filhos, pois ele mesmo dizia: “Os filhos de meus filhos são meus legítimos filhos. E os filhos dos filhos de meus filhos, são ainda meus filhos. Minha coroa, joias de minha descendência”. Filhos, filhas, noras, genros, netos, netas, seus maridos e esposas, bisnetos e bisnetas, a melhor palavra que pode resumir nosso sentimento em relação ao velho Rochedo, é OBRIGADO!

2 comentários:

Aretha Stephanie disse...

Chorando tanto e tanto!
A saudade é grande demais, mas a gratidão é maior ainda. Agradeço a Deus por ter me concedido nascer neta desse grande homem!

Kleber Andrade disse...

Texto maravilhoso meu amigo, lindo de mais. Meus sentimentos a toda família.