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domingo, 23 de março de 2014

Zé Vilaronga - Meu Herói

José Vilaronga Rios (Zé Vilaronga)
* 24/03/1920    + 31/04/1997
Às vezes eu me pego devaneando e agora a pouco cheguei a me contemplar tendo o poder de controlar o tempo. Não simplesmente pará-lo e fazê-lo andar devagar, mas voltar anos antes, sabe? Tipo aqueles filmes de ficção científica, onde as pessoas passam por um portal e voltam para mudar as coisas. É. Acho que andei assistindo demais o De Volta Para o Futuro. Mas seria bom.
Eu voltaria para a primeira metade dos anos 90, ou para os anos 80. Aqui mesmo em São José, ali na Praça da Matriz. Eu iria para uma casa que já não existe mais, a que ficava bem na esquina, e em uma poltrona que agora é minha eu iria encontrar um homem magro que já não vive mais.
Lembro-me de quando era menino, que chegava lá e pedia-lhe a bênção várias vezes por dia. Ouvia Zé Vilaronga dizer: "Deus lhe dê boa sorte", com sua voz rouca e cansada. Talvez eu não soubesse a dimensão de ouvi-lo, de tê-lo, até que fui crescendo e percebendo a importância que aquele homem tinha para mim, e para a sociedade. Vereador por dois mandatos, quando ainda éramos uma vila pertencente a Jacobina, no tempo que vereador nem recebia salário. Juiz de Paz e até subdelegado ele foi. Ah, Zé Vilaronga, um homem de quem ouvi tantas histórias e sobre quem ouvi muitas outras.
Mas terei que ser egoísta e não falar do amigo, nem do político e sim do avô.
Jamais saiu da minha memória o seu jeito brincalhão e galhofeiro de conversar com os amigos, sua presteza ímpar no dominó, e sua malandragem em me deixar ganhar quando jogávamos juntos. Dei um bocado de trabalho no dia em que me ensinou jogar damas, eu queria usar as casas brancas também. Recordo com carinho a sua religiosidade, de quando se benzia ao terminar de comer ou ao dar três voltas na fogueira de São João. Teve o dia em que me arrancou calafrios ao nadar como um peixe nas ondas do mar de Itaparica, e a maré estava alta.
Hoje eu sinto sua falta. Dia de seu aniversário. Estaria fazendo 94 anos, mas ele não está mais aqui. Tenho apenas as lembranças, que jamais serão suficientes para preencher o vazio que ele deixou. Sempre terei a dor de ele não ter conhecido minha filha e nem de ver o homem em que me tornei, graças também ao seu exemplo. Modéstia à parte, acho que ficaria orgulhoso de mim,conversaríamos por horas sobre tudo: política, futebol, gado, família, sobre o São José de outrora. Fico imaginando como seria lindo ver minha filha chegar em sua casa, dizer "bença biso" e sentar em seu colo. Infelizmente tudo isso fica só em meu devaneio e em minha tristeza de não poder controlar o tempo. Os muito religiosos me perdoem, mas nessa hora eu lamento não ser Deus.
Se eu pudesse voltar no tempo, eu lhe pediria a bênção, olharia em seus olhos claros, acariciaria seus cabelos grisalhos e diria: Vô, eu te amo. Pra mim bastaria.
Então eu acordo, encaro a realidade e simplesmente reconheço mais uma vez que "infeliz é a terra que não tem heróis", e essa cidade teve o seu. Acordo e vejo que devo seguir em frente, carregando no peito a dor da ausência mas também a alegria da lembrança, a gratidão de tê-lo conhecido e o orgulho de poder me apresentar aos outros como neto de Zé Vilaronga. Isso pra mim é um troféu.




Descendência de Zé Vilaronga

Um comentário:

Evellyn Rios disse...

vc é um grande homem meu irmão, e sei que meu zé, seu zé, nosso Zé Vilaronga estaria realizado com tudo que vc faz pela cidade que ele tanto amor e defendeu. Assim Cmo nosso vo zé, vc tbm é um heroi.. o meu irmão, O MEU HEROI! Te amuh.